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Entre caminhos de lagos: o sacambu do povo Kaixana por Darlem Penafort

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    Ecologia dos Espíritos Site
  • 6 de mai.
  • 6 min de leitura
Darlem e seu avô Onofre, na casa da família, em Tonantins (AM). Foto: Arquivo Pessoal
Darlem e seu avô Onofre, na casa da família, em Tonantins (AM). Foto: Arquivo Pessoal

Darlem Teixeira Penafort é um homem de dois mundos que, em sua trajetória, provou ser um só. Engenheiro de Pesca de formação e agora mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Darlem carrega no sobrenome e no corpo a história de resistência do povo Kaixana no Alto Solimões. Criado nas águas de São Paulo de Olivença, ele transformou a memória da infância na popa da canoa de seu avô em uma ferramenta de insurgência acadêmica e política.


Sua pesquisa não é um exercício de gabinete, mas uma etnografia de percurso que atravessa os "furos", "paranás" e "sacambus" da região do Lago Grande. Ao unir o rigor técnico da engenharia com a sensibilidade da cosmopercepção indígena, Darlem propõe uma "indigenização do manejo", na qual o peixe deixa de ser apenas um recurso e passa a ser entendido como parte de uma rede de cuidado que envolve humanos, mais que humanos e os seres "donos" dos lagos. Atualmente, além da produção intelectual, atua como vice-presidente da Associação Indígena Kaixana, evidenciando que, para o seu povo, o conhecimento só faz sentido quando retorna ao território.


A pesquisa "Entre caminhos e lagos: percepção ambiental e habilidades de pescadores Kaixana" constitui o alicerce desta conversa e integra o projeto “Ecologia dos Espíritos: conhecimentos tradicionais e conservação da sociobiodiversidade na Amazônia”, desenvolvido no âmbito do programa Amazônia+10, financiado por meio da chamada pública CNPq/CONFAP nº 34/2023. A iniciativa reúne diferentes instituições de pesquisa e busca compreender as relações entre saberes tradicionais, biodiversidade e formas de conservação na Amazônia, reconhecendo a centralidade das cosmologias indígenas na produção de conhecimento.


Nesse contexto, o trabalho de Darlem nasce de uma percepção ambiental singular e relacional, onde "pegar peixe" não é um ato mecânico, mas uma habilidade fundante da identidade Kaixana. Ao descrever as dinâmicas dos ambientes e as relações de coexistência que configuram as paisagens de pesca do pirarucu (Arapaima gigas) e do tambaqui (Colossoma macropomum), o pesquisador constrói uma leitura que não separa técnica, experiência e cosmologia.


A investigação, fundamentada em uma etnografia baseada em percursos na comunidade Sacambú do Lago Grande, em São Paulo de Olivença, analisa a dinâmica sazonal, os critérios de escolha dos lugares de pesca, a integração de técnicas e as profundas relações cosmológicas que regem o território. Ao articular esse diálogo entre formas distintas de perceber a vida, Darlem demonstra como a capacidade Kaixana de ler movimentos, identificar lugares e interagir com os cardumes constitui-se em uma verdadeira cosmopolítica de cuidado da sociobiodiversidade. É sob este prisma que a entrevista a seguir se desenrola.


Izabel Santos: Darlem, é uma satisfação enorme acompanhar a conclusão desse ciclo. Sua pesquisa de mestrado em Antropologia Social na Ufam não parece ser apenas um trabalho acadêmico, mas uma sistematização de uma vida inteira no Solimões. Para começarmos, gostaria que você apresentasse o seu trabalho aos leitores, explicando como a trajetória da família Penaforth se confunde com a própria existência do povo Kaixana em São Paulo de Olivença.


Darlem Penafort: Meu trabalho teve como tema "Entre Caminhos e Lagos". Nele, eu mergulho na percepção ambiental dos pescadores Kaixana da região do Alto Solimões, especificamente na comunidade Sacambu. Para falar desse povo, eu tive que me aprofundar no meu próprio histórico familiar. Quem são os Kaixana? Por que estamos em São Paulo de Olivença? A literatura muitas vezes situa a ocorrência desse povo no município de Tonantins, no rio Cupessu. Mas, conversando com meus tios e com meu avô, entendi como a família Penaforth chegou ao centro dessa história. Meu bisavô, Francisco Penafort, casou-se com uma indígena Kaixana chamada Jacinta. Esses traços peculiares formaram o povo Kaixana com muitas diferenças na cor e no cabelo, mas sem nunca perder a essência cultural, as danças. O Sacambu, que hoje é um complexo de lagos conectado por um igarapé, foi a terra que permitiu esse deslocamento. Meu tataravô, que era comerciante do Nordeste e veio arrendar terras para a borracha, comprou esse lugar chamado Cá-te-espera, uma área de terra firme e restinga. Foi ali, nas décadas de 1970 e 1980, que meu avô Onofre (Piranga: que significa vermelho) começou a migrar de Tonantins para as proximidades de São Paulo de Olivença, buscando peixe e terra para plantar para seus dez filhos. Eu trago esse histórico na minha introdução porque minha pesquisa não começou na universidade; ela começou quando eu tinha cinco anos e meu avô me levava para pescar no Rio Solimões e nos lagos.


Você utiliza uma expressão muito forte na sua metodologia, a "etnografia de percurso". Como esse deslocamento físico pelos igarapés e paranás se transforma em uma ferramenta de compreensão antropológica e técnica ao mesmo tempo?


A etnografia de percurso é justamente essa viagem de ir para o lago. É descrever como se chega lá, saindo do Solimões, passando pelos acessos que mudam completamente entre a seca e a cheia. Eu faço uma metáfora chamando o Sacambu de "Cordão da Vida". É ali que a vida se (re)produz. Os peixes estão no lago, mas saem para se reproduzir e ficam alvados justamente no Sacambu, um igarapé que surge das restingas e charcos, com profundidade, correnteza e águas frias essenciais à reprodução dos peixes nos períodos de chuva. A leitura desse ambiente se dá por um corpo que chamo de "cosmoperceptivo". Meus tios, dentro da canoa, percebem a água pela coloração, pela temperatura e pela correnteza. Eles sabem, antes mesmo de chegar, se está bom de pescar no Buritizal ou em determinado Igarapé. Essa habilidade de saber o caminho e se deslocar por esses "canos" — como eles chamam os igarapés que se conectam aos rios e lagos — é o que eu descrevo no meu primeiro capítulo. Fizemos expedições na cheia e na vazante, abrindo caminhos, lidando com os obstáculos e, ao mesmo tempo, reforçando uma forma de conhecimento que é prática, corporal e relacional.


Um dos conceitos mais instigantes do seu trabalho é o "Coió". Para quem é de fora, pode parecer apenas um ponto no mapa, mas para o pescador Kaixana, o “Coió” parece ser algo vivo. Como você define essa ecologia relacional?


O Coió é o lugar de encontro. É onde o peixe, a malhadeira, o ser humano e os seres não humanos se cruzam. É uma ecologia relacional e dinâmica, mas o que a diferencia é o intangível. O pescador Kaixana tem uma relação de diplomacia com esses lugares. Meu tio Hilton (Magro), por exemplo, é considerado um dos melhores pescadores justamente por essa sensibilidade com os “donos” do lago. Se ele sente que o ambiente está pesado, ele respeita. Meu avô dizia que, quando escutava algo na malhadeira e não havia peixe, era preciso equilibrar o lugar, porque eram os espíritos se manifestando. Isso não é simbólico para nós — é parte da prática.


Há uma crítica muito contundente na sua fala sobre a diferença entre a pesca comercial capitalista e a pesca Kaixana. Como se dá essa "indigenização do manejo" que você propõe?


A pesca Kaixana se baseia no cuidado e na continuidade da vida. Pode parecer contraditório, mas faz sentido quando você pesca pensando no futuro. O pescador respeita o tamanho do peixe, conversa com ele, entende o momento de retirar e o momento de deixar. A lógica do capitalismo é outra: extrair o máximo possível agora. Para nós, o manejo não é só produção — é uma forma de proteger o território.


Sua pesquisa se insere no projeto Ecologia dos Espíritos. Como essa experiência ampliou o seu olhar sobre a pesca e o território?


O projeto me permitiu aprofundar algo que já vivemos, mas que raramente é reconhecido nos modelos institucionais. Quando falamos em ecologia dos espíritos, estamos falando de uma realidade em que os ambientes são habitados por presenças que têm agência. No nosso caso, a mãe-do-lago é um desses seres. Ela interfere, organiza, regula. A pesca depende dessa relação.


Você chegou a coordenar atividades dentro desse projeto?


Sim. Coordenei a Expedição Kaixana na comunidade Sacambú do Lago Grande. A gente acompanhou o cotidiano dos pescadores, as decisões, os deslocamentos, e principalmente as relações estabelecidas com a mãe-do-lago. Isso mostrou que pescar é também negociar — não só com o ambiente físico, mas com esses seres.


O que isso revela sobre o próprio conceito de ambiente?


Que o ambiente não é só um conjunto de recursos. É um espaço habitado, um lugar de encontro entre múltiplas vidas. Quando essas relações estão em equilíbrio, a pesca acontece. Quando não estão, o ambiente responde.


E qual a contribuição da sua pesquisa para pensar conservação?


Mostrar que não existe conservação sem relação. O cuidado com os lagos envolve ética, respeito, memória e convivência com esses seres. Ignorar isso é comprometer a continuidade da vida nesses territórios.


Você mencionou que sua pesquisa também teve impacto na organização comunitária. Como foi esse processo?


Foi um movimento de escuta e articulação. Ajudamos a reorganizar a Associação Indígena Kaixana, retomando a participação coletiva e fortalecendo a capacidade de atuação da comunidade.


E quanto aos desafios atuais?


O avanço da pesca predatória ameaça esse equilíbrio. Quando essas relações se rompem, não é só o peixe que desaparece — é todo um modo de vida.


Para encerrarmos, você optou por uma escrita mais sensível e narrativa. Por quê?


Porque o conhecimento não está só na teoria. Ele está na vivência, na prática, na memória. Eu quis que minha escrita refletisse isso.


 
 
 

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