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Sobre o projeto
O projeto Ecologia dos Espíritos busca produzir um panorama de conhecimentos etnográficos sobre o manejo e conservação da sociobiodiversidade e da paisagem florestal e aquática por parte de uma diversidade de povos indígenas e comunidades tradicionais da Amazônia (indígenas, ribeirinhos e quilombolas), a partir de um recorte específico e, a nosso ver, tanto incontornável quanto pouco discutido: a relação entre estes povos/comunidades com seres espirituais e a existência destes “seres invisíveis” como determinante para a conservação de espécies e paisagens.
Esses seres podem ser as figuras dos donos, mestres, encantados e mães de espécies vegetais, animais e minerais, ou os duplos e espíritos auxiliares ou, ainda, santos, visagens e outros entes (ver relevantes para as dinâmicas sociais e ecológicas nos territórios em que o projeto atua. Nossa hipótese de partida é a de que a maneira como as populações indígenas e tradicionais amazônicas lidam com a biodiversidade está inseparavelmente ligada com as suas cosmologias, que concebem uma floresta habitada e animada por lugares habitados por seres espirituais múltiplos, o que permite compreendermos outros modos de se relacionar como ecologias locais.
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Nesse sentido, argumentamos que, se os povos indígenas, quilombolas e tradicionais são os grandes responsáveis pela conservação da floresta, isso se dá, também, devido a essas relações concretas do que podemos chamar de uma “ecologia como espíritos dentro”, inextricáveis das interações cotidianas com a biodiversidade. Pensar na conservação da sociobiodiversidade amazônica em tempos de mudanças climáticas passa por necessariamente levar a sério o que os povos da floresta estão dizendo, pensando, praticando; o que também significa entender que a Amazônia é habitada por uma série de agências espirituais que se manifestam em objetos, processos e práticas, incluindo as práticas de manejo ambiental. Aqui, não consideramos tais conhecimentos numa chave de entendimento que os concebem como crenças, lendas e folclore, mas sim como concepções incorporadas em relações concretas que atravessam os modos desses povos se relacionarem com o cosmo, transformando mutuamente os termos em jogo, produzindo efeitos na paisagem e atualizando-se em materialidades diversas.
A partir desse entendimento, nosso intuito é reunir um amplo leque de narrativas, memórias e práticas, bem como objetos relacionados aos seres espirituais, em diferentes lugares da Amazônia, produzindo, assim, etnografias implicadas com as perspectivas desde os territórios sobre conservação ambiental. Para isso, contaremos com uma rede de pesquisadores de duas universidades amazônicas, UFAM e UFOPA, de duas universidade do sul e sudeste do país, a UFSC e a UFES, e de 14 territórios da Amazônia, onde as expedições serão realizadas. A partir das conexões de nossos interesses de pesquisas, voltados para relações entre ecologias locais e seres espirituais, buscaremos estabelecer intercâmbios variados de saberes.
O primeiro desafio científico que o projeto busca superar é o de realizar pesquisas com o “intangível”. Como “perseguir” e compreender a presença dos espíritos e seus efeitos ecológicos, seguindo as pistas e incorporando os conhecimentos dos povos da floresta, sem reduzir estas formulações locais sobre estas existências “invisíveis” em “cultura”, “lenda’ ou “folclore”. Levar a sério implica, fazer uma antropologia que se abra para conversações com as criatividades presentes nas sociocosmologias dos povos da Amazônia, reconhecendo que o papel dos espíritos nas práticas científicas de conservação da biodiversidade e na mitigação das mudanças climáticas continua sendo um fator subestimado, pouco pesquisado e mal compreendido para explicar os desafios da Amazônia contemporânea. Encarar este desafio, o de reconhecer o papel dos espíritos na conservação ambiental, implica em desafiarmos os pressupostos “sólidos” da biologia da conservação e a hegemonia da ciência natural, para que alianças interdisciplinares possam ocorrer a despeito de divergências ontológicas e epistemológicas entre as ciências.
Trata-se, portanto, de criarmos espaços de conversações com pesquisadores locais, pajés, especialistas, caçadores, rezadeiras, para pensarmos juntos e contarmos histórias significativas sobre a existência dos espíritos e suas relações, não como “representações” culturais ou simbólicas, mas, sim, seguindo as recém-formuladas propostas dos campos da “virada ontológica” e da “virada multiespécie” na Antropologia, como a arte de notar relações que se expressam materialmente e em conceitos locais.
Um segundo desafio se refere a encararmos os limites das tecnologias e conceitos das abordagens convencionais da conservação da biodiversidade, que, muitas vezes, se resumem a valorar com maior grau de importância os “fenômenos naturais” colocando-os em oposição à cultura. O projeto busca superar este dualismo, direcionando seus esforços etnográficos para evidenciar a tecnodiversidade de modos de produzir vidas e lugares nos multiterritórios de povos indígenas e tradicionais onde realizaremos as pesquisas colaborativas.
Um terceiro, e último desafio, da maior importância é o modo de analisar comparativamente os resultados de múltiplas pesquisas etnográficas. É importante demarcar, para este desafio, que o projeto não abordará a comparação como meio de alcance de grandes sínteses teóricas, ou de universais amazônicos sobre os conhecimentos locais de natureza, ou trazer à luz uma teoria geral nativa da conservação, mas, sim, apostar no contraste e na multiplicidade, em outras palavras, na diferença e na fricção por entre a diferença que se produz pelas relacionalidades. O olhar comparativo do projeto seria não para as “culturas”, mas sim, para as relações que produzem conhecimentos sobre o mundo.
A equipe envolvida no projeto será formada por pesquisadores da universidade proponente e parceiras, e por pesquisadores locais de territórios indígenas, quilombolas e ribeirinhos. Dos membros da equipe 05 (cinco) são docentes de Instituições de Ensino e Pesquisa, 14 (doze) são mestrandos e doutorandos, sendo 01 (um) mestrando quilombola, 01 (um) mestrando e doutorando indígena Kaixiana, 01 (um) mestre indígena Munduruku e 05 (cinco) doutorandos indígenas (Piratapuia, Tukano, Parintintin, Desana e Omágua-Kambeba) e 20 (vinte) pesquisadores locais dos territórios foco do projeto.
Destaca-se, como um atributo positivo da equipe do projeto, que 05 (cinco) pesquisadores responsáveis pelas expedições de campo são ao mesmo tempo, estudantes de pós-graduação em Antropologia e habitantes dos territórios onde ocorrerão as expedições das pesquisas etnográficas com envolvimento direto de seus parentes e a comunidade, o que demonstra que o projeto é um meio de atrair jovens pesquisadores de suas próprias comunidades, através da orientação de alunos de pós-graduação, estágios de Iniciação Científica e/ou supervisão de estágios de pós-doutores.
São três os eixos temáticos do projeto onde realizaremos expedições que irão gerar resultados que se desdobrarão em escalas comparativas (ver Mapa). Os descrevemos a seguir:
Eixos:
1) Ecologia de espíritos, florestas e clima
Expedições: Araguaia (Inỹ-Karajá e Apyãwa-Tapirapé); Omágua-Kambeba; Piratapuia; Munduruku; Tukano; Quilombo Laranjal e Camambi.
2) Ecologia de espíritos e plantas
Expedições: Pupỹkary; Quilombo Passagem.
3) Ecologia de espíritos, espécies animais aquáticas e terrestres
Expedições: Banawá; Comunidade beradeira Pimental; Kaixana; Guaporé (Djeoromitxi).
4) Ecologia de espíritos e fungos.
Expedições: Yanomami; Tukano.
Instituições e programas de pós-graduação:
Universidade Federal do Amazonas - UFAM
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social - PPGAS
Universidade Federal do Oeste do Pará - Ufopa
Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Arqueologia - PPGAA
Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social - PPGAS
Universidade Federal do Espírito Santo - UFES
Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social - PPGAS
Laboratórios de pesquisa:
Colar -
Tepahí - Terras, Paisagens, Histórias e Imagens na Amazônia (PPGAA/Ufopa).
Financiadores:
Conselho Nacional de Pesquisa
Fapeam
Fapespa
Vínculos institucionais
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