Entre matas, espíritos e ancestrais: os caminhos do Hetohokỹ no território Inỹ
- Ecologia dos Espíritos Site
- 4 de jun.
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O dia ainda não clareou completamente quando os homens começam a se reunir. Alguns carregam facões, outros equilibram ferramentas nos ombros. Há quem siga de bicicleta por trilhas alagadas, outros vão a pé. O destino muda de um ano para outro, mas o motivo é o mesmo: buscar na mata os materiais necessários para o Hetohokỹ, o ritual de iniciação masculina do povo Inỹ-Karajá. Não se trata apenas de cortar madeira, retirar palha ou encontrar cipó. Cada deslocamento reativa conhecimentos sobre lugares específicos, memórias de viagens passadas e histórias transmitidas pelos mais velhos.
Foi acompanhando esses percursos que o antropólogo Eduardo Soares Nunes realizou, entre fevereiro e março deste ano, uma nova etapa de pesquisa na aldeia Santa Isabel do Morro, na Ilha do Bananal, no Tocantins (TO). Durante quase um mês, ele acompanhou os preparativos e a realização do Hetohokỹ, registrando narrativas, cantos, expedições e conversas sobre os seres que habitam rios, matas, lagos, cemitérios e outros domínios do território Inỹ.
Segundo Eduardo, uma das questões centrais observadas durante o campo foi a maneira como o ritual coloca em movimento uma vasta rede de relações que extrapola os limites físicos da aldeia. "O pátio ritual não aparece como um espaço separado da floresta ou dos outros lugares do território. Pelo contrário, ele se constitui a partir deles. Os espíritos chegam de diferentes lugares, os homens percorrem caminhos conhecidos, os mortos retornam de antigas aldeias. Tudo isso passa a fazer parte da festa", afirma.

Ao longo da pesquisa, o antropólogo acompanhou expedições para coleta de madeira, palha de babaçu e cipó, além das caçadas realizadas durante o período de reclusão dos iniciandos. Em uma das jornadas, os caçadores percorreram mais de 15 quilômetros por áreas de varjão e bolsões de mata em busca de queixadas. Mais do que uma atividade destinada à obtenção de alimento, a caçada envolve um conhecimento minucioso da paisagem. Os caminhos são orientados por rastros, sinais deixados pelos animais e pela memória dos homens que conhecem cada trecho do território.
As discussões sobre onde cortar madeira ou onde encontrar palha revelam a mesma lógica. Durante as expedições, era comum ouvir referências a visitas feitas meses ou anos antes. Alguém lembrava que determinada mata já não tinha mais material suficiente; outro sugeria mudar de direção porque havia encontrado melhores condições em outro local. "A festa depende dessa circulação permanente pelo território. É ela que mantém vivos conhecimentos sobre lugares específicos e cria novas experiências que serão lembradas nas próximas gerações", observa o pesquisador.
Mas o Hetohokỹ também mobiliza outros habitantes desses lugares. Durante o ritual, os worosỹ — espíritos dos mortos — chegam de antigos assentamentos localizados ao longo do Rio das Mortes e de outras áreas associadas à história dos antepassados da aldeia de Santa Isabel. Ao mesmo tempo, os aõni aõni, espíritos ligados aos animais, aparecem por meio de cantos, danças e performances que fazem parte do ciclo cerimonial. A presença desses seres não é tratada como representação ou metáfora. Eles participam efetivamente da vida ritual e das relações que constituem o mundo Inỹ.

Uma das tentativas realizadas durante a expedição foi justamente revisitar alguns desses lugares antigos. Ao lado de conhecedores locais, Eduardo subiu o Rio das Mortes em busca de antigos sítios de ocupação mencionados nas narrativas dos mais velhos. A cheia dificultou a localização das referências utilizadas na navegação, como praias e curvas do rio, mas a viagem reforçou a importância desses lugares na memória coletiva da comunidade. A expectativa é que uma nova incursão seja realizada durante o período de seca.
Ao retornar do campo, Eduardo trouxe uma série de gravações, milhares de fotografias e um conjunto de registros que continuará sendo trabalhado ao longo dos próximos meses em parceria com pesquisadores Inỹ-Karajá. Mais do que documentar um ritual, o trabalho busca acompanhar os modos pelos quais pessoas, espíritos, animais e lugares se articulam na produção contínua do território e da vida coletiva.

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