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“Da carne da terra se faz a cerâmica”: pesquisa indígena premiada valoriza conhecimentos das mulheres do Alto Rio Negro

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Ecologia dos Espíritos Site
13 de ago.
6 min de leitura

Atualizado: 25 de ago.

Reconhecimentos recebidos por Sileusa Natalina Menezes Monteiro dão visibilidade ao fazer cerâmico como conhecimento coletivo, marcado por relações com o território, ancestralidade, movimento de mulheres e outros seres

A pesquisadora indígena Sileusa Monteiro, ao centro, recebe a premiação. Foto: Olga Lysloff/Ancestrtaolidades.org
A pesquisadora indígena Sileusa Monteiro, ao centro, recebe a premiação. Foto: Olga Lysloff/Ancestrtaolidades.org

Quando recebeu o e-mail informando que sua pesquisa havia sido selecionada pelo Programa Ancestralidades de Valorização à Pesquisa, Sileusa Natalina Menezes Monteiro estava na Universidade Federal do Amazonas (Ufam), trabalhando na formação de professores indígenas do Baixo Amazonas. Só viu a mensagem durante o intervalo da aula. “Eu vi o e-mail e fiquei: ‘Meu Deus, eu consegui!’”, lembra. No dia seguinte, viajou para Taracuá, no Alto Rio Negro, e dividiu a notícia com as pessoas que haviam construído a pesquisa junto com ela.


Indígena do povo Desana, Sileusa foi premiada pela pesquisa “Da carne da terra se faz a cerâmica”, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) da Ufam. O trabalho foi um dos 12 contemplados na edição 2024 do Programa Ancestralidades, na categoria Meio Ambiente e Raça. A iniciativa reconhece pesquisas relacionadas aos saberes, histórias e culturas das populações negra e indígena no Brasil. O trabalho também foi premiado como a melhor dissertação do PPGAS em 2025.


A pesquisa recebeu ainda um segundo reconhecimento, desta vez internacional. Sileusa foi contemplada pelo Norm & Sibby Whitten Publication Subvention Award 2025–2026, concedido pela Society for the Anthropology of Lowland South America (SALSA). O apoio será destinado à publicação do livro Da carne da terra se faz cerâmica: um fazer político de mulheres indígenas, que nasce de sua dissertação de mestrado e será publicado pela Editora Mil Folhas.


Para Sileusa, porém, os reconhecimentos recebidos pela pesquisa não pertencem apenas a quem a assina. Pertencem também às mulheres de Taracuá que fazem cerâmica, aos homens que participam desse processo e aos moradores que compartilharam seus conhecimentos. “Eu sempre digo que as premiações da pesquisa, a dissertação e agora nós estamos caminhando para a tese, são vitória coletiva das mulheres e dos moradores também de Taracuá”, afirma.


O reconhecimento nacional, explica a pesquisadora, tornou mais visível uma prática que não pode ser compreendida apenas pelo objeto pronto. Antes que um pote receba seus grafismos, seja queimado, polido e colocado à venda, há uma longa cadeia de conhecimentos, relações e cuidados. “A maioria das pessoas não conhece o processo como é feita a cerâmica. Só sabem que aquela cerâmica está aí, com grafismo, bonitinha, mas todo aquele processo é invisibilizado”, conta.


O trabalho começa na retirada da argila e passa pela coleta do caraipé, árvore cuja casca é preparada, queimada, pilada e peneirada até se transformar em um pó, depois misturado à argila. A partir daí começa o acordelamento: primeiro é feita a base da peça e, em seguida, as mulheres moldam roletes de argila que são sobrepostos um a um, enquanto ajustam a espessura e dão forma à cerâmica. Quando o formato esperado é alcançado, a peça passa pela secagem e pelo polimento, antes do pré-aquecimento, da queima, do delineamento dos grafismos, do enegrecimento e da limpeza.


Cada uma dessas etapas mobiliza conhecimentos específicos, acumulados e transmitidos entre as mulheres. É preciso saber, por exemplo, qual lenha usar na queima, no enegrecimento e na impermeabilização. E uma escolha que funciona para uma ceramista pode produzir um resultado diferente nas mãos de outra. “Eu sempre digo que existe a mão, a mão daquela mulher”, explica Sileusa, ao falar da técnica e da habilidade próprias de cada ceramista.


Essa “mão” carrega técnica e experiência, mas a cerâmica não se faz apenas na relação entre a mulher e a matéria. É justamente aí que o título “Da carne da terra se faz a cerâmica” conduz a uma das dimensões centrais da pesquisa.


A carne da terra é a argila, mas é também parte do corpo de uma figura feminina ancestral, a avó da argila, dona desse material e conhecedora das regras que orientam seu uso. Sileusa conta que, quando retiram o barro, as mulheres estão retirando a carne da panturrilha da avó. Por isso, antes de começar, é preciso pedir autorização. Existem regras, cuidados com o corpo e uma ética que acompanha todo o processo de manufatura.


Não respeitar essa relação pode ter consequências. Segundo os conhecimentos compartilhados pelas mulheres e registrados pela pesquisadora, o conflito com a avó da argila pode se manifestar em doenças, dores nas mãos ou nas costas. “Tudo isso é relacional”, resume Sileusa. A cerâmica aparece, assim, não somente como uma técnica de transformação da matéria, mas como uma prática atravessada por relações entre mulheres, território e seres que coexistem nesse mundo.

Sileusa durante a sua defesa no PPGAS, ao lado da professora Ana Carla Bruno, membra da banca. Foto: Arquivo Pessoal
Sileusa durante a sua defesa no PPGAS, ao lado da professora Ana Carla Bruno, membra da banca. Foto: Arquivo Pessoal

É essa compreensão que Sileusa procura levar para dentro da universidade. Em sua pesquisa, os conhecimentos indígenas não aparecem como informações a serem interpretadas exclusivamente pelas categorias acadêmicas. São, eles próprios, formas de conhecer. “Além de visibilizar o conhecimento das mulheres, o conhecimento indígena também é uma epistemologia e uma forma de viver que está dentro de uma universidade, dialogando com outros conhecimentos”, afirma. Para ela, reconhecer esse fazer também como metodologia é uma maneira de perguntar como os próprios povos indígenas podem levar suas formas de produzir conhecimento para o espaço acadêmico.


A cerâmica circula ainda por outros espaços, pois está, por exemplo, nas casas e no aprendizado entre gerações, quando mulheres ensinam filhos, filhas e netos. Está nos grafismos e nas narrativas inscritos nas peças. E está na construção de uma identidade coletiva na região conhecida como Triângulo Tukano, onde a produção também circula por meio da marca coletiva Cerâmica Tukano.


Mas os potes também chegam às assembleias e ao movimento organizado das mulheres indígenas. A pesquisa de Sileusa acompanha essa circulação e procura entender como a cerâmica se entrelaça às lutas por direitos coletivos e específicos das mulheres. “Falar de cerâmica não é uma coisa estática. Ela sempre está em movimento em vários lugares”, diz.


Esse movimento alcança também a economia das famílias, como Sileusa relata que, quando chegou ao território, percebeu que a prática estava enfraquecida. Desde então, pequenos projetos, ações de manejo do caraipé e oficinas vêm sendo desenvolvidos para apoiar sua continuidade. Em uma de suas visitas mais recentes, encontrou mulheres produzindo peças para comercialização. A venda possibilita que tenham renda própria, comprem mantimentos, atendam às necessidades dos filhos e contribuam para a sustentabilidade familiar.


A entrada no mercado, entretanto, cria outras tensões, como o valor atribuído à peça que nem sempre corresponde ao trabalho e aos conhecimentos necessários para produzi-la. Quando a cerâmica chega ao comprador, grande parte de seu percurso já se tornou invisível: a coleta da argila, o pedido à avó, o conhecimento das plantas, o domínio do fogo, as técnicas transmitidas entre gerações e o tempo das mulheres. Essa invisibilidade, observa Sileusa, acaba incidindo diretamente sobre o preço.


A dissertação também começa agora a percorrer outros caminhos. Com o apoio recebido da SALSA, a pesquisa será transformada no livro Da carne da terra se faz cerâmica: um fazer político de mulheres indígenas, pela Editora Mil Folhas. A publicação levará a um público mais amplo os conhecimentos das di’i yerã numia, as mulheres fazedoras de cerâmica de Taracuá, e as reflexões de Sileusa sobre o fazer cerâmico como uma forma de conhecimento e de atuação política das mulheres indígenas.


Enquanto a dissertação segue em direção ao livro, novas perguntas já conduzem a pesquisadora para a tese. Sileusa pretende investigar a venda das peças, as formas indígenas de economia e as aproximações e tensões com a lógica de mercado. Quer compreender, sobretudo, como a valorização de todo o conhecimento envolvido na produção pode repercutir também na remuneração das ceramistas e fortalecer a prática em diferentes territórios.


O reconhecimento recebido do Programa Ancestralidades é visto por ela como um passo nesse percurso, não como seu ponto de chegada. “Nós estamos ainda nesse desafio do reconhecimento”, diz. A luta, explica, é para que sejam valorizadas não apenas as mulheres de Taracuá, Iauaretê e Pari-Cachoeira, mas ceramistas de outras regiões da Terra Indígena Alto Rio Negro. E para que, quando uma peça atravesse as fronteiras do território, aquilo que ela carrega não desapareça diante de sua transformação em mercadoria.

A pesquisadora com membros do colegiado indígena e outros alunos do PPGAS/Ufam. Foto: Arquivo Pessoal
A pesquisadora com membros do colegiado indígena e outros alunos do PPGAS/Ufam. Foto: Arquivo Pessoal

É também por isso que Sileusa insiste em deslocar o olhar de quem vê apenas um pote. Uma peça pode estar em uma casa, ser vendida, chegar a um museu ou participar de uma cerimônia. Mas não se encerra em nenhuma dessas funções. Há nela a técnica de quem a moldou, grafismos, histórias, relações sociais, cuidados e modos de viver. “Ela ultrapassa, vai muito além”, diz Sileusa. “É uma forma de vida, é uma epistemologia.”


 
 
 

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