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Entre o luto e a floresta, pesquisa acompanha os caminhos dos espíritos no território Apyãwa

Foto do escritor: Ecologia dos Espíritos Site
Ecologia dos Espíritos Site
13 de ago.
6 min de leitura

Expedição de João Lucas Santos Rego à Terra Indígena Urubu Branco acompanhou narrativas, práticas cotidianas e deslocamentos pela Serra do Urubu Branco e identificou novos lugares associados às moradas dos axyga

Caminhada pela floresta durante a expedição na Terra Indígena Urubu Branco. Os deslocamentos permitiram acompanhar lugares associados à coleta de materiais e às moradas dos axyga, os espíritos. Foto: Lucas Santos
Caminhada pela floresta durante a expedição na Terra Indígena Urubu Branco. Os deslocamentos permitiram acompanhar lugares associados à coleta de materiais e às moradas dos axyga, os espíritos. Foto: Lucas Santos

A pesquisa de João Lucas Santos Rego entre os Apyãwa (Tapirapé) começou com uma expectativa: acompanhar as festas em que os axyga, os espíritos, são recebidos na aldeia. Mas o campo tomou outro rumo. Entre outubro e dezembro de 2025, período em que o pesquisador permaneceu na Terra Indígena Urubu Branco, em Mato Grosso, uma sequência de falecimentos instaurou o kiriri, o silêncio do luto, e suspendeu as festas que seriam o ponto de partida da investigação.


A mudança não interrompeu a pesquisa, mas fez com que ela seguisse outros caminhos. Se o plano inicial era observar a chegada dos espíritos à aldeia durante os rituais, João Lucas passou a acompanhar os Apyãwa em seus deslocamentos até lugares onde esses seres habitam. A inversão abriu uma frente inesperada no trabalho: durante as caminhadas pela mata, os próprios moradores identificaram locais até então não mencionados como moradas dos axyga. Histórias, caminhos e lugares passaram, então, a conduzir o campo.

Mulher Apyãwa compartilha o cotidiano com crianças em uma rede na aldeia Tapi’itãwa. As relações familiares e a transmissão de conhecimentos entre gerações atravessaram o período de campo da pesquisa. Foto: Lucas Santos
Mulher Apyãwa compartilha o cotidiano com crianças em uma rede na aldeia Tapi’itãwa. As relações familiares e a transmissão de conhecimentos entre gerações atravessaram o período de campo da pesquisa. Foto: Lucas Santos

A expedição integra o subprojeto Ecologia dos Espíritos na bacia do Araguaia — Expedição Apyãwa (Tapirapé), coordenado por João Lucas no âmbito do projeto Ecologia dos Espíritos: conhecimentos tradicionais e conservação da sociobiodiversidade na Amazônia. O trabalho contou ainda com Koria Valdvane Tapirapé, Samuel Oparaxowa Tapirapé, Xaokãto'i Roberto Tapirapé e Oropeʼi Tapirapé, conhecedores, pesquisadores e guias locais.


O interesse inicial estava nas tarywa, festas realizadas no pátio central de Tapiʼitãwa, a maior e mais populosa aldeia Apyãwa. Nessas ocasiões, os axyga são convidados a festejar e chegam ricamente adornados. João Lucas pretendia acompanhar quais espíritos participavam das cerimônias, os alimentos oferecidos a eles e os materiais empregados na produção de suas vestimentas, as axyga ryro, e de sua morada cerimonial, a takãra.


Com o prolongamento do luto, a atenção se voltou para a vida cotidiana. O pesquisador acompanhou conversas noturnas dos mais velhos no terreiro da casa cerimonial, oficinas de fabricação de flechas, caminhos até as roças, estradas entre aldeias e incursões pela floresta. As narrativas apareciam nesses diferentes espaços e falavam da chegada dos Apyãwa ao território, das aldeias antigas, das guerras, das relações com os Javaé e Karajá e dos axyga e seus lugares de morada.


Aos poucos, o território deixou de aparecer apenas como o lugar onde a pesquisa acontecia e passou a orientar suas perguntas. Conhecer os espíritos implicava também caminhar até os lugares relacionados a eles e ouvir as histórias pelas quais esses lugares são lembrados e reconhecidos.

A fabricação das flechas reúne técnicas e materiais coletados no território. Durante o campo, João Lucas acompanhou etapas desse trabalho e expedições para a obtenção de matérias-primas utilizadas pelos Apyãwa. Foto: Lucas Santos
A fabricação das flechas reúne técnicas e materiais coletados no território. Durante o campo, João Lucas acompanhou etapas desse trabalho e expedições para a obtenção de matérias-primas utilizadas pelos Apyãwa. Foto: Lucas Santos

A Yrywoʼywãwa, a Serra do Urubu Branco, ganhou centralidade nesses percursos. Os Apyãwa conhecem a serra como lugar de seres poderosos, entre eles Karowãra, associado ao trovão. Ao mesmo tempo, a região está próxima da porção norte da Terra Indígena, onde invasões, desmatamentos e queimadas preocupam as comunidades. Para os Apyãwa, essas transformações não atingem somente a mata. A floresta é habitada pelos axyga e sua destruição interfere também nas relações entre esses seres e as pessoas.


Quando João Lucas chegou ao território, grupos Apyãwa realizavam expedições pela serra à procura de akamãxywã, uma variedade de taquari, e de moo’ywã, uma planta silvestre. Os materiais são utilizados na confecção das o’ywã, as flechas.


As imagens produzidas durante o campo guardam parte desse cotidiano. Homens aparecem sentados com feixes de flechas, em outro momento, hastes, penas e fibras ocupam o chão enquanto um deles trabalha. Mais adiante, o caminho sai da aldeia e desaparece sob a mata. A fabricação de um artefato começa, assim, muito antes do trabalho realizado no pátio, exige saber onde encontrar aquilo de que ele é feito.

No pátio da aldeia Tapi’itãwa, mulher Apyãwa participa de um dos momentos do cotidiano acompanhados durante a expedição de João Lucas Santos Rego à Terra Indígena Urubu Branco, em Mato Grosso. Foto: Lucas Santos
No pátio da aldeia Tapi’itãwa, mulher Apyãwa participa de um dos momentos do cotidiano acompanhados durante a expedição de João Lucas Santos Rego à Terra Indígena Urubu Branco, em Mato Grosso. Foto: Lucas Santos

Foi durante essas incursões que ocorreu um dos acontecimentos que redirecionaram a pesquisa. Akamãxywaxowãra era tradicionalmente frequentada para a coleta de akamãxywã. A Serra do Urubu Branco já era conhecida pela presença de Karowãra e de outros axyga, razão pela qual os deslocamentos pela região exigiam cautela. Naquele ponto específico, entretanto, nem os mais velhos nem os xamãs costumavam mencionar moradas de espíritos. Durante as caminhadas, novos locais associados aos axyga foram identificados pelos aldeões.


A partir dali, João Lucas passou a registrar as histórias relacionadas a esses lugares e a trabalhar, junto aos conhecedores Apyãwa, no mapeamento das moradas. Não se tratava de uma descoberta produzida isoladamente pelo pesquisador. O que surgia em campo dependia dos deslocamentos coletivos e das pessoas capazes de reconhecer, nomear e contar aqueles lugares.


As caminhadas pelos sopés da serra permitiram ainda identificar áreas onde ocorrem espécies vegetais empregadas na construção da casa cerimonial e na confecção de máscaras e vestimentas de alguns dos espíritos visitantes. O que aparece mais tarde no pátio cerimonial começa na floresta, nos lugares onde estão as plantas e os materiais necessários à realização das festas.


Boa parte das histórias foi registrada ao cair da noite no takãwytera, o pátio da casa cerimonial, para onde os mais velhos se deslocam diariamente. Outras conversas aconteceram nos takope, os pátios das casas. Algumas foram anotadas no caderno de campo; outras, gravadas.


Entre elas está a história de Mãkãxiwewe, narrada por Oropeʼi. O relato acompanha Mãkãxi, filho de Xawaromy, e remete a práticas presentes na iniciação masculina: o cuidado com os cabelos, o grande akygetãra, feito com penas caudais de arara-vermelha, e o marãkayja, dança-canto realizada em círculo no pátio da casa cerimonial. Na história, Mãkãxi escapa daqueles que pretendiam comê-lo e voa. É desse voo que vem o nome Mãkãxiwewe.


Outras narrativas levaram a aldeias antigas, guerras e transformações nas relações entre os Apyãwa e outros povos. Nos primeiros dias de campo, enquanto acompanhava oficinas de fabricação de flechas, João Lucas registrou a indicação de Tawãenãwa como um cemitério e, portanto, uma morada de axyga dos guerreiros mortos em antigos confrontos com os Karajá.


Histórias como essas também desenham o território. Uma narrativa pode levar a uma aldeia que já não existe; um cemitério continua relacionado aos mortos que ali estão; uma serra guarda a presença de determinados seres; um lugar visitado para retirar taquari pode fazer aparecer uma morada de espíritos que antes não havia sido mencionada. A cartografia que emerge do campo é feita de deslocamentos, lembranças e relações.


Essa dimensão se torna especialmente sensível diante das transformações sofridas pela Terra Indígena Urubu Branco. O território oficialmente reconhecido corresponde a uma parte do Apyãwa ywy, o território tradicional Apyãwa, que se estende do nordeste de Mato Grosso ao sudeste do Pará. Desde a homologação da TI, em 1998, invasões avançam pela porção norte, destruindo áreas de floresta por meio de desmatamento e queimadas.

Arara-vermelha pousada sobre a cobertura de uma construção na aldeia. As penas da espécie estão presentes em adornos Apyãwa, entre eles o akygetãra, grande cocar relacionado à iniciação masculina. Foto: Lucas Santos
Arara-vermelha pousada sobre a cobertura de uma construção na aldeia. As penas da espécie estão presentes em adornos Apyãwa, entre eles o akygetãra, grande cocar relacionado à iniciação masculina. Foto: Lucas Santos

Uma conversa registrada com Oropeʼi aproxima diretamente essas transformações da presença dos axyga. Ele conta que uma poderosa pãxẽ, a pajé Tokari, havia colocado diferentes seres na direção das antigas aldeias do norte. Diante do avanço dos não indígenas e da derrubada da mata, uma pergunta passou a incomodá-lo: o que aconteceu com esses seres?


“Onde estão as cobras para eles?”, pergunta Oropeʼi ao falar daqueles que derrubam a floresta. Logo depois, acrescenta que a mata foi derrubada “daqui até Belém”.


A pergunta permanece sem resposta no relato e talvez seja justamente sua permanência que importe. A floresta que desaparece não é um espaço vazio do qual se retiram árvores. Ela é atravessada por histórias e habitada por seres. O relatório registra que, para os Apyãwa, a violência dessas transformações desperta a irritação dos axyga e tem repercussões sobre a saúde das pessoas.


Depois de quase três meses, João Lucas deixou o campo com uma pesquisa diferente daquela que havia planejado. O luto impediu que acompanhasse as festas, mas aproximou o trabalho de outras dimensões da vida Apyãwa. Os lugares indicados durante a primeira expedição começaram a ser mapeados e novos deslocamentos passaram a ser planejados com a comunidade. Serra do Urubu Branco, Towajaatãwa, Akamaxywaxowãra, Xanyaona, Itaynoã, Towajaãwa, Wiriao e Orokotãwa estão entre os locais previstos para as próximas incursões.


A continuidade do trabalho terá participação direta dos pesquisadores Apyãwa indicados pela própria comunidade. Eles deverão acompanhar novas expedições, entrevistar xamãs e especialistas rituais, registrar materiais e objetos produzidos para as festas e contribuir para a organização de uma coleção Apyãwa. Os pesquisadores indígenas também participarão como coautores dos produtos científicos resultantes do projeto.


O silêncio do kiriri suspendeu as festas, mas não as relações que lhes dão existência, elas permaneceram nas conversas ao anoitecer, nas flechas fabricadas na casa cerimonial, nas lembranças dos mais velhos, nas plantas buscadas longe da aldeia e nos caminhos que sobem em direção à Serra do Urubu Branco.


Foi seguindo esses caminhos que a primeira expedição começou a encontrar seu próprio objeto. Não apenas os espíritos que chegam para dançar e festejar entre os Apyãwa, mas os lugares onde vivem — e as relações que fazem da floresta, ao mesmo tempo, território, memória e morada.


 
 
 

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